Webnovel? Livros? Contos? - Aplicativos de Leitura e a Violência Disfarçada de Romance
Ultimamente tenho observado muitas propagandas de aplicativos de leitura e sites que teriam as chamadas Webnovels. No entanto, ao entrar neste conteúdo não tem as histórias padrão desse gênero que é bem forte na Ásia e gera uma série de conteúdo, como mangá, anime, série etc.
A webnovel que estou acostumada até possuí alguns erros de concordância e português por serem traduzidas de forma amadora de uma língua com estrutura gramatical bem diferente do português e das línguas latinas. Mas nestes aplicativos, que aparecem aos montes nas redes sociais, são histórias de um nível de escrita muito fraco, com tropos básicos, personagens fracos, enredo péssimo, muito conteúdo erótico e pouco desenvolvimento de enredo. Além disso, não há como não notar os erros grotescos de português e a forma preguiçosa de escrita.
Isso me choca, pois são conteúdos extremamente consumidos. Não é querendo invalidar o esforço dos vários autores independentes que lutam para a vingar na indústria, mas chega a ser cômico e vergonhoso o conteúdo.
Admito que já vi/li alguns conteúdos e textos que são publicados nestes aplicativos. Em sua maioria exploram o sofrimento e a dor de forma exacerbada, violação, estupr*, espancamento, tráfico humano é o mais puro gore apresentado como um grande trampolim para a superação ou pior, apenas por entretenimento. No entanto, quando por superação, não é pessoal, por meio do esforço individual sempre necessita de um príncipe salvador para que a redenção ou a vingança sanguinária possibilite a mulher ou garota seguir em frente.
Mesmo esses personagens masculinos sendo apresentados na narrativa como salvadores ou trampolins para essa salvação, eles são em sua maioria a personificação das violências sofridas pela personagem principal. Protagonizam cenas de sexo violento, que só normalizam e deixam ainda mais escancarado a objetificação do corpo feminino.
O contexto da violência tão explicita não trás relevância para nada da história, para além de criar uma vítima e relativizar a dor e o sofrimento, que passa como um relacionamento. Outro aspecto recorrente é a toxicidade das relações, tudo posto como se fosse o suprassumo do amor. O amor ali é a dor causada como resultado de posse, é a objetificação das pessoas, é a dependência emocional, física e financeira, é o horror da perda do eu.
Todos esses temas, como violências e crimes podem e devem ser abordado na literatura, mas com abertura para reflexão que eles são crimes que devem ser extirpados, que não devem ser tolerados, que não devem ser normalizados. No entanto, o que vi foi a normalização doentia de tudo isso.
É um assunto que deve ser discutido e que me gera medo. Muito se fala sobre o vício em pornografia que muitos homens tem, mas esse novo nicho, que é voltado principalmente para mulheres, também causa os mesmos malefícios. Por exemplo, uma adolescente que se depara com essas cenas e as normaliza pode se ver mais susceptível a relacionamentos tóxicos e violências por associa-los a normalidade.Outro ponto deste universo é: estes aplicativos ganham muito dinheiro!
O conteúdo é liberado por capítulo, geralmente são capítulos curtos que deixam ganchos (ou o real desenvolvimento da história) para os parágrafos finais e quando você vai abrir o próximo capítulo é necessário moedas, bônus ou pontos, sendo estes vendidos em dólar que se convertido dão valores absurdos. São poucos os aplicativos que dão a opção de desbloquear capítulo vendo anúncios - que já sabemos ainda assim gera dinheiro para o aplicativo de leitura, e essa opção fica disponível apenas por 2 ou 4 vezes ao dia. Em resumo, o dinheiro entra aos montes nessas plataformas e o leitor que quer continuar a leitura só perde.Muito se fala sobre não julgar a leitura alheia embasado no falso moralismo e uma falácia de uma superioridade intelectual, mas creio que nesse caso específico há muito a se perder ao consumir somente tal conteúdo. As chamadas leituras de aeroporto, que são para descansar a mente, sem pretensões de reflexões intelectuais, morais, quais sejam, são mais do que importante (consumo muito!). No entanto, ouso dizer que tais conteúdos não são sobre isso. Há limites, ou pelo menos deveria ter uma regulação clara sobre o público e quem está lendo.





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