Terminei de ler agora Beijada pela Maré e senti a necessidade de falar sobre ele. Como não tenho ninguém para conversar sobre livros, que a imensidão da internet seja minha interlocutora.
O livro da Thainá Fernadez é mais do que um romance fantástico. É um mergulho dentro de um sofrimento mal compreendido, pela personagem Nina, mas principalmente pelo mundo.
Leitura gostosa que em uma única sentada (no meu caso em dois trajetos de ônibus em pé) pode se terminar.
A personagem principal é uma pessoa com deficiência, no caso autista, que sofre com a falta de acessibilidade na faculdade, em casa e falta de compreensão e adaptação da sua própria família. Isso leva ela a extremos de sofrimento que resulta na busca da saída através do não sentir mais.
Em busca da recuperação após uma tentativa de autoextermínio Nina vai passar uma temporada na pousada de sua Tia-avó Regina que mora em um paraíso ecológico à beira mar. Na busca da melhora, que Nina não sabe bem de quê já que ela é só ela, enfrenta momentos de desconexão com o mundo e consigo até ser salva por um ser mítico que não se encaixa na sua lógica.
História sobre amor, sim, mas principalmente sobre descoberta, aceitação e escuta de si mesmo. Pois nosso corpo fala aos berros sobre como nos sentimos.
O livro conta com ilustrações lindíssimas, ultimamente é raro ver um conteúdo que não tenha passado pela IA para ser concebido.
| Ilustração de divulgação do livro. Disponível em Amazon , acesso 24/06/2026 |
Um dos pontos mais sensíveis para mim foi a temática suicídio. Aquela palavrinha que todos querem fugir combater, mas poucos buscam compreender, que é nada mais do que o ápice da dor sem auxilio, sem parceria, sem contensão.
Claramente a autora sabe sobre o que está escrevendo, não apenas por pesquisas, mas por vivências. Nunca li algo tão claro que conversa comigo e com o que eu sinto no quesito ideação suicida quanto o trecho abaixo:
"Nunca se tratou de desistir. Nina simplesmente não sabe como continuar. Ela deseja tanto a paz que até o nada parece misericordioso. E então a ficha cai, com uma crueldade repentina, feito uma das ondas quebrando acima dela. Nina não quer dar um fim a tudo. Ela só quer uma versão da vida que não despedace mais ainda seu coração. " (posição¹ 593, FERNANDEZ, 2026²)
Eu enquanto uma pessoa bipolar que sofre com as mesmas dificuldades que a personagem principal me senti ouvida pelo livro.
Pouco se fala e se sabe sobre o Transtorno Afetivo Bipolar no senso comum que não seja sobre ideias rasas, estereotipadas e preconceituosas. "Afinal, todo mundo é um pocou bipolar...", "Também mudo de humor com frequência" e "Viu o jornal? Aquele doido falou que é bipolar por isso fez aquilo"
E na realidade, estamos aqui performando normalidade em uma sociedade que tem medo do nosso diagnóstico. Nossas oscilações de humor não são em um dia estar triste e em outro estar feliz, são meses inteiros acreditando que somos super humanos que damos conta de tudo e somos muito bom em algo e em outros lutando para fazer o mínimo, sair da cama, comer, lavar cabelo...meses, não dias.
E cada mudança dessa é uma bomba para o nosso cérebro. São mudanças tão abruptas e extremas que células morrem, nossa memória é pior que da Dory, nossa plasticidade neural diminui, nossa capacidade de aprendizado é afetada.
Bipolares sem tratamento tem mais chance de ter demência precoce, é uma comorbidade. Demência.
Também temos sintomas bem parecidos com autistas, hipersensibilidade a cheiros, sons, toque. Eu particularmente, uso abafadores de epi e fones headsets com frequência, para não perder a mão e ficar muito irritada. Irritabilidade, mais uma coisas na lista.
Sei lá. Só estou elencando alguns sintomas. Porque me vi no livro, me senti compreendida. Nem todos querem entender, ainda mais bipolares que são bem estigmatizados, estigma esse que os autistas começam a evidenciar através do conhecimento, mas ainda não querem aceitar os diagnósticos as adaptações e as necessidades.
Na realidade acho que não querem aceitar nossa existência como um todo.
Livros como o da Thainá Fernandes mostram como as vezes é mais fácil aceitar um tritão do que uma pessoa com deficiência ou uma pessoa com transtorno (meu caso), a personagem principal enfrentou bem mais dificuldades em um mundo que não aceita a existência dela do que a de um ser mitológico. Devíamos ter vergonha disso enquanto sociedade.
No momento sigo cansada, repetindo mantras como a personagem principal, mas os meus são menos poéticos, tais como: Um dia de cada vez, amanhã será melhor e Morrer não é a solução. Mas momento de leituras sempre me aliviam e hoje foi esse livro nacional de uma mulher autista que me deu mais um fôlego.
Obrigada Thainá, o dia de hoje foi mais leve devido a sua escrita.
Compre na Amazon
¹ Forma de indicar a leitura do Leitor de livros digitais Kindle.
² FERNANDES, Thainá. Beijada pela Maré. 2026. E-book Kindle. Biblioteca Pessoal. Acesso em: 06.2026.
Comentários
Postar um comentário